Seu olhar estava parado, perdido, fixo... aquele olhar distante... o olhar que tenta acompanhar a corrida dos pensamentos que não paravam de surgir.
- O que você está pensando?
O olhar dele encontrava nos olhos dela um lugar para repousar. O silêncio perturbava a paz do momento, mesmo depois da agonia daquele seu olhar distante.
- Nada... Os olhos dele voltavam a se perder em meio ao ambiente mas os dela miravam fixamente nos olhos dele. Aquilo, no fundo, a deixava preocupada. Triste talvez.
- Mas você está pensando em alguma coisa. Diga o que é!
Ele volta a olhar nos olhos dela e lhe entrega um sorriso rasteiro, simples e responde :
- Mas não é nada, amor! Juro!
Ela, então, finge acreditar. Mas era óbvio que ele estava a pensar milhares de coisas ali enquanto estava com ela.
Mas como explicar tantas coisas. Eram tantos pensamentos perdidos rasgando sua mente. Como encontrar uma forma direta, racional ou lógica para organizá-los?. Os pensamentos não conseguiam ser transcritos à boca. Então ficavam presos. Corroíam sua alma.
As cicatrizes das feridas do passado começaram a doer. O medo de amar. O medo de se entregar a um novo amor. O medo de sofrer. O medo de se declarar. O medo de dizer o que sente. O medo de aceitar o amor que sente. O medo de quebrar a cara. O medo de ser traído. O medo de não ser correspondido. O medo de magoar mais ainda o coração. O medo da frieza.
Ele não era de ter medo. Mas quando percebeu que o que sentia por ela já não era mais apenas um bem querer, um apego ou carinho, então ele conheceu o medo. Agora era amor o que ele sentia por ela. Em tão pouco tempo ele se reencontrou o amor. Ele não imaginava que o reencontro se daria tão cedo. Mas foi inevitável. Já estava dentro dele. O coração já pulsava o nome dela. Quando os olhos se fechavam, era o rosto dela que era desenhado na escuridão. Era a presença dela que a saudade exigia.
Mas ele ainda lembrava das dores do amor. Da decepção. Ele não tinha mais nenhuma dúvida do amor que sentia por ela. Ele apenas tinha medo.
Então ele procurava lembrar de como é feliz do lado dela. De como é bom sorrir ao lado dela. De como é bom sentir o seu abraço. Assim, então, ele voltava a respirar um pouco de fé. A fé de que vale a pena entregar seu coração para ela.
Ele só não queria correr riscos. Que ela tivesse, em relação a ele, a mesma certeza que ele tem em relação ao que sente por ela. Ela era a primeira e a única até então para ele. Mas ele não. Ele não era o primeiro. Ele não queria palavras repetidas. Ele não queria carinhos repetidos. Ele não queria momentos repetidos. Ele queria a mesma exclusividade e importância que ele daria a ela. Ele queria superar as expectativas dela. Ele sonhava com isso. No dia em que ele tornaria-se único para ela. Assim como ela é para ele. Ele queria ser tudo que ela sempre sonhou.
Ele não queria amar nem mais nem menos que ela. Ele queria que os dois amassem por igual. Que o amor aumentasse por igual. Ele queria apenas sentir a certeza disso. Ficar em paz.
Ele nunca foi de negar ou esconder os seus sentimentos, assim como nunca foi de guardar um sorriso ou um pingo de lágrima. Mas a vida, com suas lições e experiências de vida, fizeram com que sua razão insistisse ferozmente para que ele adotasse um jeito frio de ser e de se relacionar, evitando assim qualquer tipo de dor.
Mas apesar de todo o sangue derramado, de todas as feridas, cicatrizes e medos... No fundo ele ainda acreditava no amor. E acreditava no amor que sentia por ela. E acreditava que valeria a pena entregar seu coração para ela. Valeria a pena correr todos os riscos que por ventura viessem a aparecer.
É em meio ao seu olhar distante e perdido que todos esses pensamentos circulavam, mas que não conseguiam sair pela boca. Todos estavam presos ali na sua mente. Procurando se organizar.
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